A Unitree chegou à bolsa. E os humanoides chineses entraram em uma nova fase.

Fabio Neto

A Unitree Robotics, uma das maiores fabricantes de humanoides do mundo, estreou no STAR Market da Bolsa de Xangai com valorização superior a 460% no primeiro dia de negociação. As ações haviam sido oferecidas por 150,80 yuans e encerraram o pregão a 845 yuans. Nas primeiras negociações, a empresa chegou a valer aproximadamente 342 bilhões de yuans, enquanto os papéis chegaram a acumular alta superior a 600% durante o dia.

Mas o número mais interessante dessa história talvez não esteja na bolsa. Está na fábrica. Enquanto boa parte da indústria global ainda trabalha para transformar humanoides em produtos comerciais, a Unitree já está produzindo, vendendo e entregando essas máquinas em escala.

De Hangzhou para o mercado global

Fundada em 2016 e sediada em Hangzhou, a Unitree construiu sua operação inicialmente ao redor de robôs quadrúpedes e depois avançou para humanoides, braços robóticos, sensores e outros sistemas de automação.

A mudança ganhou velocidade nos últimos anos.

Em 2023, a empresa começou a comercializar seus humanoides. No ano seguinte, apresentou o G1, vendido por cerca de US$ 13,5 mil.

Em 2025, a Unitree enviou mais de 5.500 robôs humanoides ao mercado e registrou lucro líquido de 278 milhões de yuans.

Essa combinação é relevante porque o setor ainda é formado por muitas empresas em estágio inicial, queimando capital enquanto tentam encontrar aplicações comerciais capazes de justificar a produção em escala.

A Unitree está entre as companhias que conseguiram avançar simultaneamente em produto, volume e resultado financeiro.

E agora ganhou acesso a uma nova fonte de capital.

O IPO muda o tamanho da disputa

A oferta pública buscava levantar aproximadamente US$ 900 milhões, com uma avaliação inicial próxima de US$ 9 bilhões.

A estreia aconteceu no STAR Market, segmento da Bolsa de Xangai criado para empresas de tecnologia e frequentemente comparado à Nasdaq americana.

Mais do que um evento financeiro, a abertura de capital dá à Unitree novos recursos para competir em uma indústria que exige investimentos elevados em hardware, software, inteligência artificial, produção e cadeia de suprimentos.

Existe também uma diferença importante em relação a outras fabricantes chinesas.

A UBTech já possui ações negociadas em Hong Kong. A AgiBot continua privada. A Unitree, porém, tornou-se a primeira fabricante chinesa de robôs humanoides a realizar uma estreia em bolsa na China continental.

E ela provavelmente não ficará sozinha por muito tempo.

Outras empresas chinesas de robótica, incluindo Deep Robotics e Leju Robotics, também estão se preparando para chegar ao mercado acionário.

A próxima etapa da consolidação dessa indústria pode, portanto, acontecer tanto nas fábricas quanto nas bolsas.

A vantagem chinesa começa pelo preço

Existe uma razão para a Unitree ter chamado tanta atenção fora da China: seus robôs são relativamente baratos.

O G1, por exemplo, chegou ao mercado por aproximadamente US$ 13,5 mil.

Nos quadrúpedes, essa diferença aparece de maneira ainda mais clara. Os cães-robôs da Unitree começam em aproximadamente US$ 2,7 mil, enquanto o Spot, da Boston Dynamics, custa cerca de US$ 70 mil.

Os produtos não são diretamente equivalentes. Existem diferenças importantes de tamanho, capacidade, hardware e aplicações.

Ainda assim, a distância de preço ajuda a revelar uma característica da indústria chinesa de robótica: sua capacidade de transformar componentes sofisticados em produtos cada vez mais acessíveis.

É uma dinâmica conhecida em outras indústrias chinesas.

Primeiro vem a construção de uma cadeia local de fornecedores. Depois, o aumento de produção. Em seguida, redução de custos e expansão para novos mercados.

Na robótica humanoide, esse processo ainda está começando.

Hangzhou está formando um cluster de robótica

A história da Unitree também não acontece isoladamente.

Hangzhou se transformou em um dos principais polos chineses de inteligência artificial e robótica, reunindo empresas, universidades, fornecedores e capital em torno dessas tecnologias.

Investimentos governamentais também ajudaram a acelerar o setor. Entre 2020 e 2024, o número de empresas chinesas de robótica mais do que triplicou.

Isso importa porque fabricar um humanoide não depende apenas de desenvolver um bom modelo de inteligência artificial.

É necessário combinar motores, atuadores, redutores, sensores, baterias, câmeras, chips, sistemas de controle e software em uma máquina que possa ser produzida por um preço comercialmente viável.

Quanto maior a concentração dessa cadeia de fornecedores, maior tende a ser a capacidade de reduzir custos e acelerar ciclos de desenvolvimento.

A China está tentando construir exatamente esse ecossistema.

Tesla ainda promete. A Unitree já entrega.

A corrida também evidencia uma diferença de estágio entre algumas das empresas mais conhecidas do setor.

Tesla, BYD, Amazon e outras grandes companhias estão desenvolvendo robôs bípedes para aplicações industriais e logísticas.

A Tesla, por exemplo, transformou o Optimus em uma das principais apostas para seu futuro. Mas seus humanoides ainda não começaram a ser entregues comercialmente em escala.

A Unitree está em outra fase.

Ela vende humanoides desde 2023.

Essa diferença não significa que a empresa chinesa tenha resolvido todos os problemas da robótica humanoide. Tampouco significa que seus produtos sejam equivalentes aos sistemas desenvolvidos pelos concorrentes americanos.

Significa algo mais simples: a comercialização já começou.

E em uma indústria ainda tentando descobrir quais aplicações justificarão milhões de robôs humanoides, ter máquinas nas mãos dos clientes gera uma vantagem importante: dados de uso, feedback e experiência de produção.

Robótica virou mais uma frente da disputa tecnológica

China e Estados Unidos já competem em semicondutores, inteligência artificial, veículos elétricos e energia.

A robótica está entrando nessa lista.

Os dois países consideram a tecnologia estratégica porque os robôs humanoides unem várias competências críticas ao mesmo tempo: IA, chips, sensores, baterias, manufatura avançada e automação.

A disputa também começou a produzir barreiras comerciais.

Em julho, o governo americano anunciou restrições envolvendo novos robôs humanoides e quadrúpedes fabricados na China, citando preocupações relacionadas à segurança nacional e à indústria doméstica. Pequim rejeitou as justificativas e acusou Washington de politizar questões comerciais.

É mais um sinal de que a robótica deixou de ser tratada apenas como uma categoria experimental.

Ela começou a entrar no mesmo território estratégico ocupado por carros elétricos, chips e inteligência artificial.

O IPO da Unitree diz algo maior sobre a China

O mercado de humanoides ainda é pequeno quando comparado à indústria automobilística, aos smartphones ou à computação.

Também não existe consenso sobre quando essas máquinas serão economicamente viáveis em larga escala.

Mas a China está tentando resolver o problema pela industrialização.

A Unitree já entregou milhares de humanoides. Empresas concorrentes estão desenvolvendo suas próprias máquinas. Cidades como Hangzhou concentram fornecedores e fabricantes. Capital público e privado continua entrando no setor. E novas companhias estão se preparando para abrir capital.

A estreia da Unitree na bolsa é mais uma peça desse processo.

Porque, se a primeira fase da corrida pelos humanoides foi demonstrar que essas máquinas conseguem andar, correr, manipular objetos e aprender novas tarefas, a próxima será muito mais difícil:

produzi-las aos milhares, reduzir seus custos e encontrar aplicações que façam sentido economicamente.

É justamente nessa transição entre demonstração tecnológica e produção industrial que a China costuma ser mais competitiva.

China na Prática

Para empresas brasileiras, talvez seja cedo para perguntar quando haverá um humanoide trabalhando em cada fábrica.

Mas já faz sentido acompanhar quanto essas máquinas custam, quais tarefas começam a executar comercialmente e com que velocidade os fabricantes conseguem reduzir seus preços.

O avanço da Unitree mostra que a robótica humanoide está começando a sair dos vídeos de demonstração e entrar em outra fase: produto, produção, capital e escala.

E quando uma tecnologia chega a essa etapa na China, vale prestar atenção no que acontece com seu preço.